ABRA A PORTA
Hoje me levantei muito cedo para colocar-me na torre de vigia (Hb 2:1) e, de olhos bem abertos (Nm 24:4), contemplei as primeiras páginas da Santa Palavra de Deus. Desejo compartilhar os pensamentos que sobrevieram à minha mente quando meditei, ao fazer aquela leitura.



No primeiro livro da Bíblia, que descreve o início de tudo, deparei, como quem asiste a um filme, com a narrativa da existência de três famílias: a de Adão, a de Noé e a do patriarca Abrão. Seguindo as instruções de Deus, Adão saiu para trabalhar no jardim, Noé recebeu a incumbência de construir a grande arca, e Abrão recebeu a ordem de peregrinar pela terra.
Algumas tragédias atingiram essas famílias ao longo de suas existências. Após Deus expulsar Adão do Jardim do Éden, seu filho mais velho assassinou o irmão, ao romper da aurora da existência humana. Noé, após uma festa com muita bebida, lançou uma maldição sobre seu neto Canaã. Do relacionamento de Abrão com a serva Hagar nasceu um menino chamado Ismael.
Detive-me a examinar mais atentamente a história de Abrão, que então teve o nome mudado para Abraão, e enumerei diversos fatos já conhecidos.
Passados alguns anos, Sara, a esposa de Abraão, deu à luz Isaque. Este cresceu e foi desmamado, ocasião em que foi realizado um grande banquete comemorativo. Enciumada pela zombaria que Ismael fazia de Isaque, Sara pediu a Abraão que rejeitasse o filho da egípcia. Expulsar Ismael e a rival não era mais um pedido, era a exigência de Sara a seu amo e senhor.
Um menino abandonado
Começam aí, na família de Abraão, crises de relacionamento, ciúmes e desentendimentos, que atingiram seus descendentes.
Hagar pode muito bem representar a empregada de nossos dias, aquela que sofre abuso do patrão, gerente ou diretor. Isaque, o filho de Sara, simboliza as crianças que estão na igreja, frequentam a Escola Bíblica Dominical, são acompanhadas por seus pais, conhecem o plano da salvação, têm alimento e uma cama para dormir e estudam nas melhores escolas. Ismael, o filho da outra, simboliza as crianças que foram desprezadas, abandonadas, torturadas, largadas…
Penso que os servos do pai Abraão, com olhares questionadores, ficaram na expectativa, querendo saber se de fato o patriarca teria coragem de expulsar e abandonar o menino. Apesar de condoído com a situação, o plano foi executado sem demora pelo pai da fé, por ordem de Deus. Assim como Adão foi expulso do Éden, o menino Ismael, acompanhado de sua mãe, foi expulso pelo patriarca para o deserto. Sara, em seu íntimo, pôs-se a sorrir e regozijar por se livrar da presença constrangedora do menino Ismael e da rival Hagar.
Esta, desorientada, sem saber para onde ir ou o que fazer, caminhou rumo ao desconhecido deserto de Berseba.
Fiquei imaginando que aquela separação deve ter causado dor, angústia, tristeza, perdas emocionais, desconforto, conflito e desorganização generalizada na tenda do patriarca.
Durante o “despejo”, o menino, sem sombra de dúvidas, pôs-se a chorar e a clamar, expressando diante de todos seu desejo de permanecer sob a proteção paterna. Abraão viu o desespero do menino e da mãe. Tapou os olhos e os ouvidos. O menino, num clamor desesperado, manifestou seus sentimentos e pôs-se a gritar para que todos pudessem ouvir: – “Papai não me mande embora. Papai eu amo você. Eu preciso de você. Ainda sou muito pequeno para enfrentar a hostilidade do deserto…”.
Mesmo tendo grande riqueza e fartura, o pai Abraão despediu o menino, pagando-lhe uma “pensão alimentícia” constituída apenas de um odre de água e alguns pães. O pai Abraão trancou a porta de sua tenda, de seu coração e de sua consciência para não escutar o clamor do menino, que persistia a martelar seus pensamentos: “Papai não me deixe. Papai não me abandone. Eu não sei o que fazer. O deserto é perigoso…”
Anteriormente, na tenda do patriarca, o menino de proteção, riqueza, conforto, segurança, alegria… Agora, o menino, acompanhado de sua mãe (a empregada), foi lançado no deserto do desprezo, da amargura e do abandono. A vida de conforto, segurança, alegria e a certeza de futuro estável tornaram-se coisas do passado na vida de Ismael e Hagar. Mais um menino abandonado. E, quanto a Hagar, este é seu triste quadro: repudiada, abandonada, desprezada. Então, agora, o que sobressai na vida do menino e da mãe é o abandono e a falta de esperança.
O menino foi abandonado (Gn 21:15). Lágrimas consumiam os olhos de Hagar. Sua alma estava turbada. Seu coração transbordava de angústia por causa da calamidade que invadira sua existência (Lm 2:11).
No entanto, parece que a egípcia havia aprendido com o patriarca Abraão a importante lição de invocar o nome do Senhor (Gn 16:13) e reconhecer que Ele é o Deus que vê e que, mesmo na jornada de um ser humano sem rumo, sem destino, sem esperança, prepara uma fonte para saciar a sede. E a condição para que isso ocorra é a invocação de Seu Nome.
A Bíblia diz que Deus viu o menino abandonado debaixo de um arbusto e escutou sua voz (Gn 21:17). Hagar ergueu os olhos e viu a fonte no deserto de Berseba, e ouviu a voz de Deus que, no deserto de seu coração e de sua existência, fez brotar a esperança.
Deus fez brotar esperança no coração de Hagar
Diante daquela situação trágica, Deus pintou um belo quadro no deserto de Berseba e nas vidas de Hagar e do menino. Ele abriu uma fonte no deserto, fez a água jorrar, gerou esperança, abrindo os olhos de Hagar para o futuro, com promessas eternas. Ele saciou a sede, e o menino foi socorrido pela mãe. Fazer jorrar água no deserto foi um milagre de Deus, mas dar água ao menino foi trabalho e responsabilidade de Hagar.
O homem pode não ver, mas Deus sempre vê. O homem pode não ter nada a dizer, mas Deus sempre tem algo a falar em qualquer situação. O homem pode destruir a esperança de seu semelhante, mas Deus sempre tem algo novo a apresentar para aquele que O invocar. O suprimento oferecido por Abraão esgotou-se rapidamente, mas o manancial de Deus permanece inesgotável. Depois de contemplar a história sagrada e nela meditar, procurando colocar-me no lugar de cada personagem, comecei a pensar em tantos meninos e meninas descartados hoje em dia. As três instituições estabelecidas por Deus – a família, o governo representando a sociedade e a Igreja – têm rejeitado as crianças de muitas maneiras, e o filho de Hagar bem pode representar essas crianças.
Continua…
Pr. Edson Alencar – Representante da APEC Brasília
Que profundo! Infelizmente essa é uma triste realidade.Que Deus nos sensibilize, enquanto igreja do SENHOR, no sentido de dar o devido valor, que o próprio Jesus, deu as crianças
O abandono, sem sobra de dúvidas, é profundamente dolorido. Somente pelo amor haverá a cura, tendo a ciência que não haverá alguém melhor agora “acolher” do que aquele que um dia experimentou a dor de ser abandonado.
Na expectativa da conclusão desse belo texto
Sim, “as três instituições estabelecidas por Deus – a família, o governo representando a sociedade e a Igreja – têm rejeitado as crianças de muitas maneiras” (pastor Edson Alencar), e nós se buscarmos as águas purificadoras de Jesus, podemos nos encher da presença do Senhor e deixarmos que Ele nos use, da maneira que achar melhor, para levarmos a palavra de esperança, mensagem de salvação e vida eterna aos corações dos pequeninos. Eles são o futuro das famílias cristãs e igreja de Cristo. Além da busca de crescimento espiritual de cada cristão, é urgente a cura da igreja. A família tem falhado, o governo mais ainda, mas a igreja “deveria” ser um hospital de almas q estão perdidas, aflitas e sem direção.
Que presente precioso texto, que presente tê-locomo pai, ser discipulada pelo pastor Jesus por meio dos meus pais e desfrutar da presença de Deus em nosso lar. Vamos continuar orando pelas crianças que são orfãs de pais vivos. que Deus continue usando sua preciosa vida conduzindo famílias a refletirem sobre o cuidado com seus filhos . Te amo, Só agradecer…..